5 de Fev de 2010

Raízes nenhumas me agarram à terra
nem terra nenhuma me prende à vida
a minha persistência é um equívoco
um engano este afocinhar o solo
cantar os anos e assoprar o bolo
Fico-me por ver crescer o filho
o meu único filho de um amor
então incomensurável e infinito
de que restam pontas soltas
flores murchas no ramalhete
soçobrado entre pernas das solteiras
Este ano nova angústia e ressentimento
na sempre alegre indústria do casamento
e na esperança no único vestígio desse amor
que pode ainda
crescer e dar frutos
em vez de dar à costa
Encarregados sem nenhuma educação
apontam ao pequeno rebento
inaudita malevolência
sementes de violência
falhas no amor com que foi feito
de que foi nado e criado
falhas nas nossas mãos que andam dadas
a mãos que também se dão fora de casa
Nisto tudo há algo maior do que estes textinhos
seis ou sete palavras por cada verso
e um qualquer papalvo a dar-lhes nexo
lastimando o leito morno e a dor de corno
uma relutância em esquecer o passado
em aceitar que antes de tudo
já estavas sozinho
e que o conhecimento que tiveste dos outros
não foi um conhecimento de ti mesmo
Nada a ti foi feito, apenas aconteceu
no peito egoísta dos amantes
que nunca te tiveram
em desconsideração, porque em verdade
a tua morte nunca foi
importante para o sentimento de vida
que a vida contigo impossibilitou
Talvez esta escrita de algum modo afirme
que és ainda incapaz de perdoar
a Deus porque não estás certo
de que faça bem em perdoar
as desatenções do Homem ao homem
nem certo das obrigações
que a criança tem perante o brinquedo
partido ou da obediência que deve
a pais que se desrespeitam
e pretendem consertar
a mentira e a falência da família
com uma suposta dedicação
que não passa pelo amor e o perdão
Nisto tudo há algo maior
porque a culpa é sempre maior
e nenhuma palavra ou imagem
cava margens na água como um cajado
que te permita atravessar o Nilo
ou morrer sereno afogado
nas mágoas de um qualquer rio

4 de Fev de 2010

24 de Jan de 2010

Espero por ti como outros aguardam transportes
por que me queiras ou te importes
com o que havemos de fazer da vida
já gasta um no outro
como a mulher que espera sentada
na verde e metálica esplanada
que o passar da tarde tenha o poder
de parar os anos e o envelhecer
No jardim-de-infância a criança
vê os animais pintados na parede
mexer com a luz que declina
e todo o mundo à volta mede
pela sua figura pequenina
tem medo a mãe não chegue
presa por uma carreira
e uma paixão clandestina
Espero não sei em que espécie de abrigo
sem paredes, cortado pelo vento e chuva
como aguarda tanta gente, transeunte
na sua própria família
Virás deitar-te ao meu lado, chorar
porque não podes mais amar-me e
respeitar-me, aceitando apenas a vida
que expira, como aceitaste o vexame
de amar outro de que a morte
perdeu à vida em te separar
A mentira fez da casa antecâmara
de uma esperança sem amparo
pasto da família adulterada e
da mulher desconhecida
que talvez também maldiga
o teu nome como o dele
Mas não me cansei de esperar
ainda aqui estou, por ti, o meu transporte
tudo começámos demasiado cedo
vinte e um anos demoraste a levar-me vida
não dediques outros tantos a dar-me morte

23 de Jan de 2010


Trouble Everyday (Tindesticks Cover) - Landscape

21 de Jan de 2010

Não tem de morrer o amor, não às mãos
de uma memória atroz da adolescência
envergonhada e saudosa
dos seios túmidos e do corpo
enxuto
da inexperiente enamorada
Não tem de morrer à morna lamentação
de amores que já não o são
ou são e antes não
o fossem
quando na hora frente ao espelho
fenecem de imperfeições
contritas da vida as lembranças
juvenis ideais e ilusões

Não tem de morrer a mão antes
do afago
a palavra antes do conforto, o par
antes da parte
não tem de morrer o amor
como no copo a cerveja, o café
na chávena, o pão
no saco. Não como pode o lar a pouco e pouco morrer
tem de morrer o amor
com as rachas rasgadas na parede
e o dispendioso electroselvagem que deixou de ser
domesticado, a não querer aquecer
o leite, limpar a casa
tirar bicas

Não tem de morrer o amor quando encontras
no interesse de outra pessoa, súbito
o teu próprio
interesse. É somente a fome
de enlear de teu o outro
o corpo
pendente do rasteiro abrigo da braguilha
e da felicidade
a coberto de cuja liberdade não tem de morrer o amor
no jornal do dia, desactualizado no outro
o dia
seguinte. Cuida antes do jardim, para que não morram
estas plantas, as flores com as quais
não tem de padecer
o ser, o amor, titubeante e moribundo, ferido das mais
vulgares conveniências

Cuida para que não seque no enlace do rude barro
da salobre rega e insalubre terra
o quotidiano fértil
de isolamento, desatenção
e desavença
Com o tempo não envelhece a carícia
não se sacia para sempre o desejo
o sexo
imediato
da carne face à morte
porque do amor se tergiversa
Cuida, não tem de morrer o amor
como te pode morrer a criança

16 de Jan de 2010

As Raparigas Lá de Casa

Como eu amei as raparigas lá de casa

discretas fabricantes da penumbra
guardavam o meu sono como se guardassem
o meu sonho
repetiam comigo as primeiras palavras
como se repetissem os meus versos
povoavam o silencio da casa
anulando o chão os pés as portas por onde
saíam
deixando sempre um rastro de hortelã
traziam a manhã
cada manhã
o cheiro do pão fresco da humidade da terra
do leite acabado de ordenhar

(se voltassem a passar todas juntas agora
veríeis como ficava no ar o odor doce e materno
das manadas quando passam)
aproximavam-se as raparigas lá de casa
e eu escutava a inquieta maresia
dos seus corpos
umas vezes duros e frios como seixos
outras vezes tépidos como o interior dos frutos
no outono
penteavam-se
e as suas mãos eram leves e frescas como as folhas
na primavera

não me lembro da cor dos olhos quando olhava
os olhos das raparigas lá de casa
mas sei que era neles que se acendia
o sol
ou se agitava a superfície dos lagos
do jardim com lagos a que me levavam de mãos dadas
as raparigas lá de casa
que tinham namorados e com eles
traíam
a nossa indefinível cumplicidade

eu perdoava sempre e ainda agora perdoo
às raparigas lá de casa
porque sabia e sei que apenas o faziam
por ser esse o lado mau de sua inexplicável bondade
o vício da virtude da sua imensa ternura
da ternura inefável do meu primeiro amor
do meu amor pelas raparigas lá de casa.

Habitação das Chuvas - Emanuel Félix

8 de Jan de 2010

Não sabe como foi amada. Lembra-se das mãos do pai acariciarem os seus cabelos. Do seu cheiro a fumo e a álcool. E de como era bom esse cheiro. O cheiro da presença do pai. Lembra-se do seu jeito sempre ocupado, a ouvir música de olhos fechados, a ler o jornal ou um livro, a tratar de papéis, a falar com uns senhores. O seu pai de fato completo, com colete, sentado na grande mesa da sala de jantar, sempre a mãos com alguma coisa. Como a sua memória é burguesa, admira-se. E a sua forma de a exprimir socialmente comprometida. A infância abastada e aquele modelo de homem composto, barba crespa e o cabelo ralo, ruivo como o seu, o corpo gordo com mãos sapudas e uma beleza que nunca esmoreceu aos seus olhos, uma beleza sempiterna, expressa nos seus olhos ternos, nas mãos a encaracolarem os seus cabelos. Depois daquele homem possante, daquele cavalheiro imenso e sábio, cerimonioso e alegre, também não sabe como foi amada. Sobretudo porque é muito nova. Os rapazes da sua idade fumam, mas nenhum cachimbo ou charuto como o pai por vezes fazia. Há rapazes mais cheios, mas nenhum com a bonomia que a marcou tanto na infância. Houve aquele professor de música mais velho que lhe fazia a corte, esse tinha algum gosto musical, mas o pai não era homem para andar a cortejar adolescentes. Houve realmente um rapaz, já nos anos da faculdade, com quem o amor foi recíproco e luminoso. Nada tinha do pai, talvez por isso. Os outros tinham sempre qualquer coisa, mas não se lhe podiam comparar. Este não. Não havia ponto de contacto. Gostava de música pesada, tinha o corpo fino, usava roupa informal e descuidada, não fumava e fazia desporto. Estava sempre disponível para ela. Tal como o pai também partiu. Vinha do norte, onde fora jogar com a equipa de hóquei em campo, quando a carrinha da câmara municipal em que seguiam teve um acidente. O motorista teve morte imediata. O treinador e mais dois miúdos. Esteve em coma. O pai vai ter de sair de casa. Não melhorou. É o melhor para mim, para ti, para a mãe. Acompanhou o corpo ao cemitério, mas não ficou amigo da família. Não a conhecia. Vou gostar sempre de ti, filha. Vou estar sempre aqui para ti. Mas com o tempo também o pai acabou por partir. Oportunidades de negócio em África. Falam-se tão raramente. Sabe quanto amou os homens da sua vida e como lhe custou esse amor. Mas não sabe como foi amada.

7 de Jan de 2010

a espaços cabe-nos a parte do leão
sem coragem, mas afortunado
a quem é dado tudo o que nos pode
mais tarde ser tirado

ao fundo do corredor o amor é uma jarra
quebradiça, algo que te deveria envergonhar
teres trazido para casa e oferecido
à tua mulher

reino sobre a cama dos hóspedes, o amor
são dois paus negros trabalhados onde Cristo
entrega eterna a alma ao criador
e a mão ao humano deletério

na lareira o amor é um tronco húmido moído
que muito fuma sem arder, por vezes definitiva-
mente apagado, toda a noite fria
sem nunca nos aquecer

de fora para dentro da confortada habitação
o amor é um cortinado quase opaco e rente
que não nos deixa saber o que vai de morte
na semente do homem, na mulher no ventre

apenas uma vez conforme sua vontade
sangra nos filhos a sacra via o amor
num recesso parece que a vida nos tece
mas tudo transmuda em nada e desaparece

6 de Jan de 2010

Max e mãe


Julgo que a história (Where the Wild Things Are de Maurice Sendak) ilustra muitos aspectos da noção de «coisa selvagem» nas crianças pequenas. Max está magoado por ter sido castigado e isso faz com que se refugie num sítio de fantasia, com figuras assustadoras, e a verdade é que os pais podem ser assustadores quando estão zangados. A viagem demora muito tempo, como acontece quando estamos isolados e o tempo demora eternidades a passar. Por fim, ele encontra refúgio junto das coisas selvagens. Que melhor maneira de lidar com elas do que tornar-se no seu rei supremo? Mas, depois de ter cedido à rebelião e à selvajaria, ele descobre que esse é um lugar solitário. Max pensa que os monstros são malvados e, como a mãe fez com ele, manda-os para a cama sem jantar. Felizmente para Max, ele lembra-se da imagem da mãe e agarra-se a ela como sendo «boa» e assim, «de muito longe, no outro lado do mundo, sente o cheiro de coisas boas para comer». Percebemos que ele é uma criança muito amada porque, no final feliz, ele encontra o caminho para casa onde o espera um belo jantar – a ideia de uma mãe que o ama na mesma, apesar das suas atitudes selvagens.

Um Bom Pai Diz Não
- Asha Phillips
Tradução: Elsa T. S. Vieira
Lua de Papel, pág. 104

31 de Dez de 2009

Harry e Sally

Interregno

Resoluções 2010:

1 – Dar uma oportunidade ao amor
2 – Ser mais fiel a mim próprio e àquilo em que acredito
3 – Escrever mais, com mais criatividade e empenho
4 – Começar aquele romance que não repousa em mim há mais de cinco anos
5 – Deixar que a terapia faça efeito, colaborando mais e deixando a medicação
6 – Manter o meu lugar no serviço em que trabalho
7 – Apoiar a família nos seus problemas e limitações
8 – Ser presente junto dos amigos e família
8 – Maior e melhor entrega ao Tiago e à Andreia
9 – Mais rigor financeiro
10 – Manter vigilância na abstinência de psicotrópicos
11 – Aceitar os pressupostos que levaram a estas resoluções
12 – Não criar expectativas nos acontecimentos, acções e pessoas

Peço desculpa, mas precisava de um compromisso público. De dar voz também ao que não desaparece com a Internet. 2010 é ano Jacobeu. Em que faço 33 anos. Estou em época áurea para o cristianismo. Como não tenho planos directos de ir a Santiago, o que gosto muito de fazer, tento o caminho sempre difícil da vida. Na ávida esperança.

30 de Dez de 2009

Não sei como vai ser, poeta, por hoje
é só umas coisas que achas
por graça escrever
enquanto escapas ao escaparate
do jugo e julgamento
a que é sujeito o papel
sujo em tinta impressa
Não sei como vai ser poema
começado na negativa
ramerrame da difícil arte
de poetar e poetar sempre
sobre raio de coisa nenhuma
e com o cálculo do raio digo também
a área ao círculo que te encerra
Não sei como vão ser saraus e sabujos
lançamentos com actores balofos
ou mulheres sozinhas a declamar
e poetas púberes a aplaudir
todos vindos para ver ou para ser
vistos e a ex-namorada que se lembra
do pulha que nunca te escreveste
Não sei como vão ser ou se serão
as salas em penumbra, vazias como cinzeiros
e a palavra em peso pluma pairando
sobre a contabilística cabeça do editor
responsável por mais um evitável
desastre tónico ou com castelo
Não sei como vai ser quando fores vaiado
num texto de um gajo qualquer que te leu
a trouxe-mouxe na noite
em que de ti trouxe
uma vaga impressão
de desalinho e arritmia
nem como será com o embaraço
de um abraço e elogio insincero dos velhos
imortais no teu nome
a provar estar em dia
com mais uma trova da novíssima
ova. Sei apenas, poeta, que não tens
estofo, nem tempo, para a vida
literária, a poesia tem um tudo
ou nada de arcaboiço
longe dos entreténs tristes
com que entreteces as horas
outrora de estudo e fornalha
deita o teu ditado agora podes
nem toda a época é entrudo
nem toda a gente igualha

16 de Dez de 2009

Harvey e Kate

O teu é um jeito com palavras. Quando primeiro te encontrei, já nos tínhamos cruzado, lias um livro. Depois acompanhei-te, levava-te os livros, disse-te, a um curso de escrita criativa. Eu fico sem jeito com as palavras, não as peso antes de as dizer, ando à sua volta sem as desvendar e há vezes em que falo sem dar conta dos sentimentos que exprimem. Tantas são também as ocasiões em que arranco uma gargalhada a alguém quando falo a sério, outras as vezes que tento uma piada e quem me ouve me julga sincero. Teu é o jeito com as palavras. Por isso te é mais difícil viver. Sempre a racionalizar o que é ou não a vida real. A verbalizar as nossas diferenças. A catalogar as emoções, as acções, os momentos. A simplificar o que é complexo e a abaular as pontas aguçadas. Serve o teu vocabulário para que nada te saia do domínio. Para que tudo possas designar inócuo e não te possa magoar. De mim não quiseste justificações porque és pródiga a encontrá-las. Para quê justificar o que tu mesma já havias justificado? Como encontrar palavras que te convencessem de forma diferente daquela como tu mesma te convenceste? O meu não é um jeito com palavras. Por isso te foi fácil fazer frente à forma desarmada como demonstrei o meu interesse. Porque o meu não é um jeito mavioso, mas faceto. Não dissimulado e sincero. Eu não acredito no amor num país desconhecido. Sei que há vários filmes que o contam. Um homem mais velho e uma miúda casada que se apaixonam no país do karaoke. Dois jovens em interrail que têm uma madrugada para se conhecer e que não se sabe se o fizeram como os passarinhos ou se o farão como os sapos. Mas eu não acredito. O amor é sempre algo de familiar. Ainda quando dado aos filhos do divórcio, distante e sem afecto. Porque o afecto é algo quente. Não obrigatoriamente familiar. O amor também acontece quando se encontra a ex-mulher e se percebe o que foi o amor. Como tudo nos magoou e magoa ainda. O amor é uma filha que se quer feliz no casamento mesmo que isso signifique que seja o padrasto que a leva ao altar. Mesmo que não possamos abrir a boca porque sabemos que ela tem medo que a envergonhemos. O amor é algo de familiar de que se sente a falta quando já não há lugar para nós em casa. Quando sabemos que temos de partir. Meu é um jeito musical. Teu é um jeito palavroso. E há algo de familiar em ti. Como se as palavras de vez em quando também fossem música. E não houvesse mal em perder o avião. Perder o emprego. Ter perdido a filha para outro pai. Algo que me perdoa nunca me ter tornado o grande pianista de jazz que sempre me sonhei. Há algo de pertença na tua companhia. Como se houvesse um verdadeiro lugar com uma oportunidade para mim… para o amor. Para a família.

11 de Dez de 2009

The Winner Takes It All (cover)
Songs of Love/ Our Love Goes Deeper Than This

10 de Dez de 2009

As pessoas casam menos, sei
e têm menos filhos, também
mas vão agora a mais eventos
onde socializam e se conhecem
melhor. Por vezes tão mal
ou bem que acabam juntas
na cama a falar
de poetas desconhecidos
e poesias inéditas. Aconteceu
comigo, dar por mim
entre dois jovens nus
fumando winston e falando
de um poema que um tinha
dito ao outro e de como
é imaturo dizer um poema
quando se está nu da cintura
para baixo. Porque a poesia
é coisa elevada, acontece
da cintura para cima
os olhos têm de a ler
as mãos seguram-na
o coração sente-a
enche-se o peito a respirar
para que a boca melhor a diga
Aconteceu tal e qual comigo
entre rapaz e rapariga
ou se não aconteceu tal e qual
talvez tenha sido já no dia
seguinte, quando ela lhe segurava
a mão, estavam bem
agasalhados e bebiam
Assim aconteceu
lembro-me agora afinal
deles o corpo agasalhado
meu o nu integral

30 de Nov de 2009

We Two Boys Together Clinging

We Two Boys Together Clinging
David Hockney

WE two boys together clinging,/
One the other never leaving,/
Up and down the roads going, North and South excursions making,/
Power enjoying, elbows stretching, fingers clutching,/
Arm'd and fearless, eating, drinking, sleeping, loving./
No law less than ourselves owning, sailing, soldiering, thieving,
threatening,/
Misers, menials, priests alarming, air breathing, water drinking, on the turf or the sea-beach dancing,/
Cities wrenching, ease scorning, statutes mocking, feebleness
chasing,/
Fulfilling our foray.//

Leaves of Grass - Walt Whitman

23 de Nov de 2009

No confortável abrigo do domicílio
quando procuras as palavras certas
encontras um espaço indefinido na frase
onde cabem todas as crianças lá fora
soltas no parque, indo e vindo no baloiço
às voltas nas cadeiras de ferro da roda
a sujar-se na relva, dentro da página, os pais
distraídos pelo jornal e o senhor que vem
para ver as crianças e sonhar com as crianças
despidas, deitadas, seviciadas
No confortável abrigo da casa que a pouco e pouco
derrui, julgas-te protegido dos avanços à tua mulher
do colega de trabalho que para além de trabalhar
a trabalha e por quem ela se sonha deitada
despida, seviciada, partilhando ímpias intimidades
forçadas, um ou outro e-mail mais quente
e a cumplicidade para o teu assassínio lento
ao longo dos largos anos de clausura
em que te tortura o casamento
Quando sais para a rua, por vezes encontras
algum joelho coberto pela fina fibra de um colã
uma nuca descoberta pelo cabelo preso num pompom
e brancas mãos que seguram inocentes uma chávena
e também tu te atreves a sonhar com outra mulher
deitada, despida, seviciada, num quarto sem casa
um espaço sem nome, longe do desastre doméstico
do frio confortável do lar, da alheada convivência
do casal de que te julgas a coberto no insuportável
abrigo do domicilio e da família vagamente infeliz
que foste incapaz de desconstruir
Julgando-te longe da pena, gozando a liberdade
enclausurado no confortável abrigo do lar
pensas conhecer tudo e poder escrever
sobre a prostituição de rua
como se te tivessem deitado, despido, seviciado
nos bancos de um automóvel e penetrado
dolente e imóvel, com uma nota das grandes
uma tesa e opressora nota das grandes
que sentes com a mão no bolso, ou entre o chão e o céu
da boca. Dobra a caneta, dobra a mente
como as costas dobras ao patrão
que te paga um salário que sustém
a miséria dos outros, dobra a palavra e o texto
a mentira de teres passado nessa rua em Havana
onde as crianças se apaixonavam por estrangeiros
pelos seus lindos olhos azuis. Desiste de encontrar
a palavra certa, o espaço indefinido
no confortável abrigo do domicílio
e volta ao desastre doméstico, expressão que
conheces e acarinhas, familiar e sincera, volta
ao pequeno trauma e ao medo do que o mal
mais puro possa fazer aos teus filhos
do que o mal dissimulado possa semear
na tua mulher e permite-te transgredir
que os teus pensamentos tenham
dos sonhos a luxúria e o prazer
a que temes dedicar um punhado
que te dê um vislumbre de outra vida
e estanque a veia ferida da virilidade

17 de Nov de 2009

Humbert e Dolores

Como escritores maiores do que eu têm dito, «O leitor que imagine...», etc. Pensando melhor, talvez não seja má ideia dar a essas imaginações um pontapé nos fundilhos. Sabia que me apaixonara por Lolita para sempre, mas também sabia que ela não seria eternamente Lolita. Completaria treze anos no dia 1 de Janeiro, dentro de cerca de dois anos deixaria de ser uma ninfita e transformar-se-ia numa «jovem» e, depois, numa «universitária», esse horror dos horrores. A expressão «para sempre» referia-se apenas à minha paixão, à Lolita eterna infiltrada no meu sangue. À Lolita cuja cavilidade ilíaca ainda não se dilatara, à Lolita que naquele momento podia tocar e cheirar e ouvir e ver, à Lolita da voz estridente e do farto cabelo castanho - das franjas e dos remoinhos aos lados e dos caracóis na nuca, do pescoço quente e pegajoso e do vocabulário vulgar - «revoltante», «super, «formidável», «patego», «molengão» -, a essa Lolita, à minha Lolita que o pobre Catulo perderia para sempre. Como podia, assim, passar sem a ver dois meses de estivais insónias? Dois meses inteirinhos roubados aos dois anos de ninifita que lhe restavam! Deveria disfarçar-me de melancólica e bota-de-elástico solteirona, a estúpida Mlle. Humbert, e armar a minha tenda nas proximidades do acampamento Q, na esperança de que as suas rosadas ninfitas proclamassem: «Adoptemos aquela P. D. da voz profunda!», e arrastassem a pessoa deslocada, a triste e timidamente sorridente Berthe au Grand Pied, para a sua rústica lareira. Berthe dormiria com Dolores Haze.

Lolita - Vladimir Nabokov
Trad.: Fernanda Pinto Rodrigues
Biblioteca Visão, pág. 63