14 de Nov de 2009

O corpo não repousa onde a onda quebra
não mergulha no mar, nem flutua na vaga
o corpo não se lava na falsa fundura do rio
não se salga nem conserva. Denso e ilíquido
o corpo não se dilui, não se dissolve ou salva
Tem braços e pernas que não se purificam
que não desaparecem sem que apodreçam
o sexo pesado que se quer e não se pode afogar
e tronco e cabeça. Morto o corpo tem de existir
porque a alma insolúvel não tem para onde ir

13 de Nov de 2009

12 de Nov de 2009

Não sei há quantos anos costumávamos sair para ir ao cinema. Não havia ritual, apenas um filme que queríamos ver e a vontade de estarmos os dois. Sentíamos a necessidade de roubar tempo ao tempo para estar juntos. Uma hora ou duas ao dia que findava, meia hora ou mais ao que começava. No fim do filme tínhamos algo que não sendo material nunca nos seria subtraído. Algo de comum. Por muitas pessoas que tivessem visto o filme, com quem o pudéssemos discutir, não deixava de ser só nosso. Eu gostava de ti porque sabias que aquelas tiradas magníficas dos filmes saíam a saca-rolhas de tipos bedunguentos que se alimentavam mal e passavam noites sem dormir a estafar a cabeça para fazerem pessoas bonitas dizerem coisas inteligentes. E tu eras ainda mais fenomenal porque por detrás de ti, bonita como eras, parecia que havia um desses fenómenos da escrita criativa a ditar frases dignas de filme. Na altura eu queria já ser um escritor famoso, bonito, charmoso, admirado, traduzido, estudado, etc., e invejava esse tipo de t-shirt branca enodoada que se escondia dentro de ti e que animava o filme da nossa vida de tiradas espirituosas e idiossincráticas. Porque eu era um tipo banal e inconclusivo que passava pela vida sem me deter. Só tinha uma coisa que me caracterizava mas que também vira num filme, gostava de espreitar as janelas das casas à noite e imaginar como as pessoas viviam nelas. Um dia disseste-me que gostarias de ir ao cinema ao ar livre para perderes o filme a olhar as estrelas. Porque se o filme não prestasse, o céu dava a mesma sensação de que era nele que se estava verdadeiramente a viver. Eu sabia que era obra do tipo despenteado de melena mal cortada que vivia em ti. E limitava-me a desaparecer com os meus sins e nãos, os meus meneios e acenos de cabeça, esquivo entre as tuas frases como se a meio da via para atravessar a estrada. Tentando não ser atingido. Tal qual quando me disseste que apagavas as luzes das divisões antes de as abandonares para enfrentares as janelas com a certeza de não teres ninguém a observar-te. Eu esperei que apagasses a luz e descobrisses que eu estava a olhar para a tua janela, com medo do teu brilho, a pensar como seria viver onde vivias. Ser quem eras. Um dia em que te falei do geniozinho perguntaste-me porque não uma geniazinha a viver em ti? Porque não uma intelectual de gostos extravagantes e indumentária a condizer a dar as linhas do teu guião. Pois, se calhar era. Mas foi o pulha anti-social que te habitava que se apaixonou por aquela actriz mais nova no dia em que deixaste de me amar. Se calhar era, penso ainda. Afinal vocês fazem o casal perfeito, igual uma à outra, infelizes, de costas voltadas, cada uma capaz de agredir verbalmente a outra com uma tirada ainda mais rancorosa e sarcástica. A mim não me importa. Nunca me considerei diferente. Continuo a ir ao cinema, às vezes sozinho. Mesmo quando não gosto vejo o filme até ao fim. Não vou para ver estrelas.
O teu trabalho espera por ti
como o teu filho te espera
um ao raiar o novo dia
o outro quando termina
A tua esposa já não espera
como esperou a proposta
e esperou depois no altar
quando apesar de todas
as esperanças
acabaste por aparecer
O teu trabalho espera por ti
como se não houvesse mais
ninguém capaz de lhe pegar
ao colo e rodopiar e dizer
que o ama tanto como tu
como é o teu maior orgulho
ter um trabalho tão bonito
tão parecido contigo
O teu filho espera por ti
para se medir pelo que és
com o sonho confessado
de falhar a vida como tu
mas o seu maior desejo
quando te põe os olhos em cima
é que sejas capaz de o encher
assim que chegados a casa
de bolachas antes do jantar
A tua esposa já não espera
porque já não espera de ti
simplesmente sabe que vens
abrasador como a menopausa
que tiras os sapatos à entrada
e tens a tripa a remoer
para despejar em casa

2 de Nov de 2009

Voltámos, dissemos, quando o que fizemos não foi mais que partir. Nunca se volta. Nunca. Mas parte-se sempre, mesmo que não se saiba para onde ou porquê. Não há regresso porque o caminho foi batido pelo vento, tomado pelas silvas, percorrido por outras viagens e viajantes. É já outro o caminho e determina o destino. É impossível regressar, mesmo quando ao partir o nosso desejo é de regresso. A vontade não altera o destino, quanto muito acompanha-nos ao longo do percurso. Porque não podemos regressar, saibamos apenas que partimos. E que ao partir o nosso destino pode ser o encontro.

30 de Out de 2009

Não é fácil todos os dias o amor. O amor de vez em quando sim, é mais fácil. Embora, nem por isso, mais leve agora para mim. Fácil o amor quando somos apenas crianças e sem o acessório sentimento da paixão planeamos a nossa vida à imagem da dos nossos pais. Com bonecos ou bonecas, com cavalos de imaginário e pistolas de pau, com monstros e criaturas lunares, jipes, tanques e metralhadoras, carrinhos de bebé e enfermarias, é fácil parar na cozinha de fingir e ensaiar o futuro na brincadeira dos casais. Tão mais fácil o amor, mas não leve para mim. É mais fácil o amor quando se é novo, partilhando a carteira na escola com uma miúda que nos mergulha nus nos seus límpidos olhos azuis. É fácil chegar a casa, pousar os cadernos e a livralhada e ser o amor a dar o gosto ao dia. Esperar estar outra vez na sala de aula com essa mesma gaiata e ter o dia ainda inteiro para o fazer. A vida toda para o amor. Como é fácil então. E uns anos depois namoramos às escondidas ou às claras e perdemo-nos por turnos de amor fácil no estranho quarto onde fomos crianças. Mais fácil o amor e ainda assim, agora, nada leve para mim. É milagrosamente fácil o amor quando pensamos casar e começamos a procurar um lar onde caber. É fácil um vestido de sonhos e um nó na garganta no dia em que nos consagramos, sem saber, para sempre, à mentira e à traição. Quão mais fácil é também o amor quando se tem filhos. Fazer-lhes as vontades, deixá-los brincar, preparar-lhes um lanche ou vesti-los para a escola. Educá-los também. Tudo a morrer de medo de que sejam assaltados pela enorme lâmina cinza da tristeza que esventra o quotidiano adulto. É mais fácil, mas nem por isso, leve para mim. E permanece fácil o amor quando somos velhos e olhamos para trás certos de que numa vida a mais valia é ter alguém ao nosso lado. Na saúde e na doença, fácil o amor que salva e purifica, que em vez de galvanizar apazigua, que dá sentido e paz à vida. É sempre mais fácil o amor. E talvez por isso, nunca leve para mim.
Despedi-me do prazer de um cigarro
a morrer
nas mãos. Acendo-o por vezes
ainda, mas agora
sem qualquer prazer ou vício
Apenas a chama
que inflama
a mortalha e o tabaco
como a memória presente
de um antigo amigo
que o deixou de ser
Já não compro o maço
nem transporto
comigo isqueiro
ocupo o seu espaço
com o que não sobra
de pouco dinheiro

Deixei-me disso
digo
hei-de morrer de outra coisa
decidi
Mas tenho vezes de mais
de mim
a ideia
de quem fumava
e de como pensava
bruscamente
cada cigarro aceso
o maço repousado
o cinzeiro por perto
e a cinza esparsa

O fumo
imundo
a amarelecer
o mundo

29 de Out de 2009

Interregno

Este blogue é sobre, quero dizer, acerca do amor. Assim é. Assim é para ser. Apenas para não ir a correr ao meu outro blogue, que ainda ali está, poderá de quando em vez cair aqui um texto que não seja tão evidentemente sobre o amor. Embora, para mim, tenha sido o amor causa de tanta coisa, valorize-se a verdade. Assim é. Assim é para ser.

15 de Out de 2009


Candelas e Carmelo

Lo mismo que er fuego fátuo,
Lo mismo es er queré.
Le juyes y te persigue le yamas y echa a corré.
Lo mismo que er fuego fátuo, lo mismito es er queré.
Malhaya los ojos negros que le alcanzaron a ver!
Malhaya er corazon triste que en su llama quiso ardé!
Lo mismo que er fuego fátuo se desvanece er queré.


"Canción del Fuego Fatuo"
El Amor Brujo - Manuel de Falla

8 de Out de 2009

A rapariga na caixa do supermercado trabalha também
aos domingos à tarde, ela desejou mas não conseguiu
um lugar no Jumbo ou no Continente, ágil sobre os patins
prateleira em prateleira, verificando o preço ao detergente
Assim poderia tirar o domingo para o namorado
que não a vem buscar qual príncipe encantado
à caixa do super, tristonha, sonhando com o hiper
A rapariga na caixa, bem-posta, blusa branca sem decote
sorri porque lhe disseram que sorrir é preciso e esconde
o dente maltratado, que o ordenado não paga
a boa higiene oral. A rapariga à minha frente sentada
desliza nas rodas da cadeira, trás e frente
sonhando, quem dera, de prateleira em prateleira
pronta a atender ao cliente. Ela é o dia de domingo
a tarde passada em família a aproveitar a promoção
ou estou sozinho quando nos encontramos porque passei
para levar apenas uma refeição. Caixa sem dedos tuas mãos
agarram firmemente o produto, teu sorriso atende
tua camisa esconde o interesse que vai de pagar pouco
a pagar por pouco, tuas pernas de nada servem ocultas
e ainda assim escondidas na assexuada calça de funcionário
Não sei porque te escolhi na fileira de atendimento
talvez pela fila mais pequena que não faz justiça
ao teu jeito confinado e sonhador de jovem que
podendo ser tudo já desistiu de pagar estudos
Sempre a perdoar ao senhor dengoso que insiste em provocar
à senhora que lhe passou à frente o carro de mercearias
e a mim por fazer por levar o sorriso que tens que me dar
perdoa-te o domingo em sonhos de grande superfície
repetindo para ti mesma que todo o trabalho tem dias

22 de Set de 2009

Há quem escreva a guerra, a desolada
ligação ao vencedor e a palavra lida cor-
responde ao escrito sangue
escorrido em tinta impressa
Há quem tenha apenas para contar
um banal passeio pelo Rossio ou um gelado
da Santini e um passeio na praia do Estoril a evitar
as esplanadas caras e o areal curto
Na livraria alguém rouba um poema
para se atirar ao mar e levar na boca
na mão e morte o amargo amor
Quem procura a salvação na palavra
já não se espoja nas gélidas lajes da igreja
e encontra algum alento quando a ouve
tal qual sentida dita na novela
consigo a cair ininterrupta
no intervalo e esquecimento
Há quem aproveite para escrever uma vez
que foi a primeira em que as mãos se lavaram
no sexo de um rapaz ou uma outra vez
em que o hímen disse um carmesim adeus
ao ebúrneo testemunho dos laços de cetim
Alguém a quem a força bruta não afligiu mais
que o rubro embaraço frente aos pais
minutos depois de se desenvencilhar da virgindade
Crescidos somos sempre quando escrevemos
o fim à vida às próprias mãos, a definitiva
despedida de um ingrato amor que chamamos
guerra e passeio, praia e gelado, palavra e igreja
retorno à virgindade e ao poema

13 de Set de 2009

Estudantes e Putas

Ora, a essa iniciação pertencia uma instituição familiar que me consta ter acabado: as casas de putas. Não disse «familiar» por acaso. Com menor ou maior assiduidade, ia-se à Olindinha ou à Elizabeth (as patroas mais prestigiadas, com material de primeira) nem sempre por imposição dos ardores sexuais, que nessa época, muito dificilmente tinham outros meios de serenarem; ia-se para nos sentirmos numa atmosfera convivente, agasalhada, divertida, tudo isso junto, e onde se respiram presenças femininas. Ia-se para fazer sala. Havia um sofá comprido, naturalmente com o forro verde numa lástima, por de cima um espelho tamanhão a apanhar quase toda a parede, mais uns cadeirões de duvidosa segurança, pois serviam com frequência de arpéu ou de escudo quando se armavam rixas, e, ao fim da tarde, sobretudo ao serão, aquilo enchia-se. «Meninas à sala», era o clarim de guerra, e lá vinham elas ainda a ajeitar os bandós. Às vezes, porém, o tempo passava árido, bocejado, com as raparigas frustadamente distribuidas nos lugares estratégicos, saia acima saia abaixo, o rego das mamas descomposto, um braço que se estende como por acaso e não encontra réplica, um olhar lascivo a sugerir prazeres suplementares, por último, o fastio de um croché ou de uma revista de actualidades que se vão buscar à prateleira - e nem assim um cliente (muitos deles irresolutos ou timoratos) se decidia ao sinal convencionado, após o qual a puta se levantava sem mais perda de tempo, pegando na mão do candidato, se este lhe merecia a familiariedade, ambos subindo, sob as vistas cúmplices dos demais assistentes, os três degraus que levavam ao patamar das alcovas, quase todas do mesmo modelo - a cama de corpo e meio, o lavatório portátil, o bidé, o penico, excepcionalmente a cómoda com frascaria de boudoir. O sinal podia ser um breve deslizar de cabeça, um dedo que muda de posição, subtilezas cabalísticas cuja linguagem só os convertidos decifram, como nos leilões, ou, em contraste ostensivo, a proposta bem declarada de gozos a preço fixo. É que (repetindo) eram mais as vezes em que se ia à Olindinha (já na reforma) para a vermos delamber-se narcisicamente defronte do espelho emoldurado a talha dourada - «Filho, eu hoje até parece que bebi éter» - para se ser convidado às ceatas no terraço do terceiro andar, que terminavam com uma companhia na cama para a noite inteira, «só por amor», para se escrever as cartas às meretrizes analfabetas, para se desabafar um desgosto, do que para cumprir um calendário sexual. Ia-se (desculpem a heresia) para nos sentirmos num lar - as pensões e as «repúblicas» de estudantes é que nunca o poderiam fingir que o eram, não há lares sem mulheres.

O Rio Triste - Fernando Namora
Págs. 32 e 33, Planeta DeAgostini

5 de Set de 2009

I Left A Woman Waiting

I left a woman waiting
I met her sometime later
She said, I see your eyes are dead.
What happened to you, lover?
What happened to you, my lover?

And since she spoke the truth to me
I tried to answer truthfully:
Whatever happened to my eyes
Happened to your beauty
What happened to your beauty
Happened to me

We took ourselves to someone's bed
And there we fell together
Quick as dogs and truly dead were we
And free as running water
Free as running water
Free as you and me
The way it's got to be, lover
The way it's got to be.


I Left a Woman Waiting - Leonard Cohen
Leonard Cohen - Un Acorde Secreto, Pag. 232
Celeste Ediciones

24 de Ago de 2009

Interregno

É bom ver os nossos textos reconhecidos. Repercutidos. Avaliados. Comentados... Melhor ainda é quando são citados em blogues de outros. Sabermos quem por nós passa. Quem se detém. E é tão bom ficarmos com essas pessoas como amigas. E há quem tudo faça para fazer amigos. Encontrar um amor. Alguém que precisa de vós e se revê na vossa escrita. Acaba-se escarrapachado na vida de alguém. Passarinho, passarão, lindo papagaio me saiste tu!

23 de Ago de 2009

Jack e Wendy

Tenho tempo para a frase dúbia sem sentido ou a vaga frase manufacturada. Ou poderia ser concisa, directa mesmo, a confessar meu lado sério. E valer-se de nosso desencontro. Da interdita separação indizível e falência do fundo de que nos temos que governar. Poderia dizer os degraus silenciosos que nos separam de um tempo em que eu e ela ouvíamos mais que tudo o outro dizer. A verdade é um copo vazio frente e verso. A frase verborreica entornada. Na espera dos quartos quando as portas descaem meia-noite. Escancaradas para o elevador. Estaremos juntos eu e ela, com nosso filho. Juntos a brincar pelos corredores. Quem sabe no labirinto, com esse menino a quem quero, esse menino que é meu. Quando a hora for, aqui o espero. Espectro do amor, nada temente à vida. Vejo nosso leito encarniçado. Em mim uma metade oculta que não tem fases. Um destino maior do que a separação. Os três afeitos a uma renovação de votos. Testemunhará toda a gente que é alguém nesta casa. E todos aqueles que o vão ser. Há alguém entre nós e o espelho, nem precisamos de o defrontar. Eu pelo menos sei onde a noite me leva. Já procurei um quarto e não resultou comigo. Ainda assim não me sinto sozinho. Há por aí muito caso à espera de dar para o torto. Quando um homem se acerca de uma mulher e ela não está para aí virada. Ou quando marido e mulher não se entendem na educação de um filho. Há sempre uma maneira de o evitar, embora haja vezes em que ninguém se apercebe. Mas eu nunca deixarei de tentar. Mais cedo me levam à morte. Vai brincar meu filho, têm quase a tua idade. Estamos já longe da vergonha e do mau trato. Como tu querias amor, a família tem de novo um projecto. Porque eu sei o que é o mal. É uma redenção que não poupa ao nosso filho os libelos persecutórios dela e da mãe a ela. O mal é não ter ninguém nunca do nosso lado. Não haver cumplicidades. Viver a perder o apoio da mulher, sem melhor vida para a companhia de um filho. Nada tem a ver com o que faço. Ela não está para o que me dá para fazer. Assim me vou perdoando um copo e a sua progressiva distância, quem sabe ela já sente, perto dia de celebrarmos nosso casamento.

18 de Ago de 2009

The sexiest thing is trust
I wake up to find
The pirates have come
Typing up along your coast
How was I to know
The pirates have come
Between Rebecca's
Beneath your firmaments
I have worshipped
In the Jamaica Inn

Jamaica Inn
– Tori Amos


A minha mão desajeitada no colo. Pousada no braço do sofá, segurando o comando do televisor, mudando vontades no vazio. Secretamente procura a segurança que me dá a tua, tão pequenina, como pérola em minha concha protegida. Minha mão contempla agora o instante ideal para se dedicar à escrita de um romance, há muito em mim e ao qual não me abalanço nunca, na desculpa de que me tomas muito tempo e energia. Prometi a meus braços que não me escaparias, a meu peito não esquecer que nele tens lugar, em ti meu maior valor e significado. Digo-te todas as noites, logo que estejas a dormir, meu amor por ti imenso e ininterrupto, como a lide das marés erodindo a escarpa rude da realidade, rumorejante profissão de fé e medo. E lembro coisas simples como o parque de campismo nas nossas férias de verão. Seus finais de dia ao ar livre, assistindo a um desenho animado. Teus olhos atentos de menino, postos em tua atitude crescida de súbito interesse, procurando as minhas cumplicidades sobre o visto. Coisas simples dizia, tão pequenas na minha vida de adulto, onde as coisas verdadeiramente importantes nunca têm lugar, idade ou tamanho. A felicidade no feitio das cadeiras de plástico, contorcendo-se ao mínimo ajuste do corpo, e na frescura da relva pela noitinha. Eu um pouco mais contente por reconhecer nestes gestos a alegria que tanto falho em te dar. Um dia esbocei-te que na vida dos crescidos as coisas nem sempre correm como deviam, tudo tende efectivamente para pior, porque na vida dos crescidos nada é como inicialmente pensado e apenas a vontade, o desejo e o sonho possuem a amplidão da graça. O concreto, o material, o possível sendo sempre vago, frágil e insustentável. Nada tem tanto valor como aquilo que não pode ser, o que não nos pertence, o que podia ter chegado antes e não chegou. O certo errado e o errado certo. E só há uma excepção no mundo dos adultos. Apenas os filhos são sempre melhores do que o previsto. Mais lindos do que os dos outros. Melhores porque nossos. Feitos de vontade, desejo e sonho. Meus olhos surgem cansados nas fotografias e sei, quando as vejo, que hoje lhes falta a ilusão de felicidade. Lembrando a incapacidade de impedir que também a tristeza herdes de mim. Por vezes tenho que me separar de ti e nunca estou preparado. Sem as minhas tuas pequenas mãos em nossa vida de grandes. Sem as tuas minhas mãos, inadequadas e vazias.

19 de Jul de 2009

Stella e Luiz

Dona Stella acabou por se erguer das cinzas, mas foi um processo tão gradual que passou tão despercebido como a sua doença prolongada. Quando recomeçou a aparecer em público, as pessoas que a viam de braço dado com o maestro agiam como se se tivessem esquecido completamente de quem fora noutros tempos. E Dona Stella, tão determinada a não ser notada ao lado do marido, parecia infinitamente grata por isso. Agradecia a essas pessoas com o seu sorriso inexorável, que ostentava nos lábios como outras mulheres ostentam brincos nas orelhas. Esse sorriso tinha muito pouco brilho e ainda menos alegria, mas parecia tão natural, tão inteiramente seu, que sempre que as pessoas ouviam histórias de como e com quem o maestro a tinha enganado e sempre que o viam junto dessas outras mulheres, às vezes mesmo debaixo dos olhos dela, não conseguiam deixar de sentir uma certa inveja da força moral de Dona Stella. Também a própria Dona Stella se sentia grata por isso. A inveja era um sentimento que nunca se sentira tentada a experimentar em relação às outras pessoas, mas havia algo de consolador em sentir-se alvo dela. E a inveja, reflectida em vez de sentida, viria a ser a fonte mais sólida de consolação para Dona Stella até ao fim dos seus dias - ou seja, até ao fim dos dias do seu marido. Porque a morte dele quase ameaçou privá-la também disso.

Dona Stella e as suas rivais - Isabel D'Ávila Winter
Tradução: Maria do Carmo Figueira
Págs. 95 e 96
Quidnovi

28 de Jun de 2009

Graceland

The Mississippi Delta was shining
Like a National guitar
I am following the river
Down the highway
Through the cradle of the civil war

I'm going to Graceland
Graceland
In Memphis Tennessee
I'm going to Graceland

Poorboys and Pilgrims with families
And we are going to Graceland
My traveling companion is nine years old
He is the child of my first marriage
But I've reason to believe
We both will be received
In Graceland

She comes back to tell me she's gone
As if I didn't know that
As if I didn't know my own bed
As if I'd never noticed
The way she brushed her hair from her forehead
And she said losing love
Is like a window in your heart
Everybody sees you're blown apart
Everybody sees the wind blow

I'm going to Graceland
Memphis Tennessee
I'm going to Graceland
Poorboys and Pilgrims with families
And we are going to Graceland

And my traveling companions
Are ghosts and empty sockets
I'm looking at ghosts and empties
But I've reason to believe
We all will be received
In Graceland

There is a girl in New York City
Who calls herself the human trampoline
And sometimes when I'm falling flying
Or tumbling in turmoil I say
Whoa so this is what she means,
She means we're bouncing into Graceland
And I see losing love
Is like a window in your heart
Everybody sees you're blown apart
Everybody feels the wind blow

In Graceland Graceland
I'm going to Graceland
For reasons I cannot explain
There's some part of me wants to see
Graceland
And I may be obliged to defend
Every love every ending
Or maybe there's no obligations now
Maybe I've a reason to believe
We all will be received
In Graceland

Woah in graceland graceland graceland
i'm going to graceland


Paul Simon

13 de Jun de 2009

Débil o desejo se sagra
se alastra e incendeia
numa alquímica obra de corpos despidos
em seu misterioso balanço
Arde no firme lume que imola o pecado
e suas dissimuladas redenções
uma matéria perdida de mãos
da palavra e do beijo
No relevo do teu torso celebro
renovado o ministério da carne
no insondável tormento do teu peito
em teus lóbulos de inocência
e de má inclinação
Inclemente minha lenta lágrima
pelo abandono do arco da língua
no altar sacrificial do leito
Sangra insaciada a boca
ao tomar o gosto à ferida
quando em ti mato a sede
a fronte pousada no ventre
os lábios no cálice da vida