No confortável abrigo do domicílio
quando procuras as palavras certas
encontras um espaço indefinido na frase
onde cabem todas as crianças lá fora
soltas no parque, indo e vindo no baloiço
às voltas nas cadeiras de ferro da roda
a sujar-se na relva, dentro da página, os pais
distraídos pelo jornal e o senhor que vem
para ver as crianças e sonhar com as crianças
despidas, deitadas, seviciadas
No confortável abrigo da casa que a pouco e pouco
derrui, julgas-te protegido dos avanços à tua mulher
do colega de trabalho que para além de trabalhar
a trabalha e por quem ela se sonha deitada
despida, seviciada, partilhando ímpias intimidades
forçadas, um ou outro e-mail mais quente
e a cumplicidade para o teu assassínio lento
ao longo dos largos anos de clausura
em que te tortura o casamento
Quando sais para a rua, por vezes encontras
algum joelho coberto pela fina fibra de um colã
uma nuca descoberta pelo cabelo preso num pompom
e brancas mãos que seguram inocentes uma chávena
e também tu te atreves a sonhar com outra mulher
deitada, despida, seviciada, num quarto sem casa
um espaço sem nome, longe do desastre doméstico
do frio confortável do lar, da alheada convivência
do casal de que te julgas a coberto no insuportável
abrigo do domicilio e da família vagamente infeliz
que foste incapaz de desconstruir
Julgando-te longe da pena, gozando a liberdade
enclausurado no confortável abrigo do lar
pensas conhecer tudo e poder escrever
sobre a prostituição de rua
como se te tivessem deitado, despido, seviciado
nos bancos de um automóvel e penetrado
dolente e imóvel, com uma nota das grandes
uma tesa e opressora nota das grandes
que sentes com a mão no bolso, ou entre o chão e o céu
da boca. Dobra a caneta, dobra a mente
como as costas dobras ao patrão
que te paga um salário que sustém
a miséria dos outros, dobra a palavra e o texto
a mentira de teres passado nessa rua em Havana
onde as crianças se apaixonavam por estrangeiros
pelos seus lindos olhos azuis. Desiste de encontrar
a palavra certa, o espaço indefinido
no confortável abrigo do domicílio
e volta ao desastre doméstico, expressão que
conheces e acarinhas, familiar e sincera, volta
ao pequeno trauma e ao medo do que o mal
mais puro possa fazer aos teus filhos
do que o mal dissimulado possa semear
na tua mulher e permite-te transgredir
que os teus pensamentos tenham
dos sonhos a luxúria e o prazer
a que temes dedicar um punhado
que te dê um vislumbre de outra vida
e estanque a veia ferida da virilidade
Saber de mim?
-
Viciei-me, instantaneamente, nisto
Andei a sofrer com isto
isto
e mais isto
E ando fascinada com um isto de sempre
Há 6 dias

